Talvez seja possível discernir em fértil senso a volumosa problemática histórica que se arrasta ao interpretarem-se os termos, mais distantes entre si do que gostariam, Imagem e Imaginação. O tanto que sofreu o primeiro, alargado em demasia para ocupar ideários exógenos à instrução e seus processos (figura, padronagem, superfície, expressão, ícone, marcação, tipografia, adição, colagem, sobreposição, contorno, destaque, silhueta, sombra, recorte, corporeidade) terá tal termo relegado a uma caixa alta e rasa dentro da caixa do ferramental semântico, conferindo-lhe status sempre passível de requalificação (imagem aqui significa figura, aqui significa padronagem, aqui significa superfície etc), sempre adstrita a impedimentos contextuais que porventura fruam de sua poluída transmutação de arcaico ideograma a polemista pós-moderno daquilo que se dá rapidamente aos nomes. Seria tanto um decaimento explícito e literal da imagem – como evocação do Real? Na fortuna greco-platônica, algo que aparece mas não será plenamente não bastará para que se refute a este algo qualquer sorte de filiação afrodisíaca!
– Como seguir?
Um bom teste será conferir à escrupulosa imaginação esta por assim dizer terapêutica da imagem. Descrição revigorada, será terapêutica não só por ter certeza de que harmonização toma trabalho aos dias, mas será terapêutica, antes, por ter depois nascido. Quando quase exausta, desse a Pragmática com a rés cheirando a sálvia da Agonia rediviva e, em choro copioso, sem mais se apaixonasse.
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Estabelecida na tradição editorial da obra Kritik der Urteilskraft, a volumosa problemática histórica que se arrasta ao traduzirem-se (dirá a incauta verve niilista: debilitantemente?) os termos imagem e imaginação, Einbildungskraft do alemão original para o francês (imagination), o espanhol (imaginación), o inglês (imagination) e para o português de Costa Mattos (imaginação), pode, por sua vez, traduzir-se nesta paráfrase furtada ao texto:
o fim da existência da própria imagem tem de ser buscado além da imagem.
Ora, quem faria tanto senão ela, a imaginação? Movimento, a imaginação ativa a neutralidade mental naturalmente (diríamos teleologicamente, mas basta ver, a §70 , certa admissão de insuficiência quando afirma o texto que "nossa razão não está em condições de uni-las", isto é, de unir a ligação físico-mecânica e a ligação final ao experimentarmos a natureza, e tomar então tal admissão como convite à renovação afirmativa da esperança de que, conforme assim queiramos, teorizemos e hermeneuticamente procuremos, marcando nossos achados com a feição pictórica do revigorar descritivo, haverá sentido (vivente-conjuntivo) acima de tudo). Que ela deva instruir processualmente a natureza para nós ou a humana ontologia deixa pois de ser eleição mera para, com mais ou menos intenção, condição de possibilidade ser.
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Trata-se do décimo-segundo poema do livro Alba (Orides Fontela, 1983):
–
A MÃO
I
A mão destrói imagens
descristaliza signos
e a luz de novo
desabitada
pulsa serenamente
em frio ímpeto.
II
A mão destrói-se
furtando-se
à textura do ser
e do silêncio
e – naufragada a forma –
subsiste uma estrela
sobre as águas.
–
Nele, a eternidade da sempiterna e reluzente luz dirá onde estamos, Una. Nesta, o brilho do calor interno-eterno emana águas, frescor e imensidão. No alvorecer, em brancura fria, nebulosa virtude transparece.
(Quando o verso faz polêmica, deve a atitude hermenêutica procurar a região intencional que terá gestado o poema. Nas idas e vindas da leitura, marca-se o segundo verso como a mó agônica do décimo-segundo. Descristalizar signos atuará em favor do movimento original da criação, este que admite o a priori fecundante da subsistente estrela.)
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No filme Napoléon (Abel Gance, 1927), logo antes de se iniciar a milagrosa campanha à Itália, uma cena de poucos segundos dá a ver aquilo que subsiste, parafraseando a poeta paulista, quando naufragada a forma – uma estrela sobre as águas.
Voltar a ver esta cena sob a ingente pressão da oferta de faturas nos cardápios de filmes e séries poderá concretizar, em apreensão, o que posterior lição nenhuma soube dar ao cinema mudo. Fazer isto. Mesmo sob pena de tornar-se um chato de galochas a preterir a montanha de novidades em prol do retorno aos clássicos. Que há cinema até Alfred Hitchcock no que diz respeito a sua fundamentação gramatical já ninguém discorda. Mas haveria também, e aqui reside o incômodo, na sétima arte que alcança o final dos anos 1930 quase todo o conteúdo de verdade que ela soube imantar, atrair e transportar do distanciamento do palco, da fixação da pintura, do psicologismo do romance.
O general Bonaparte, depois de arremessar a espada à mesa, nada faz de truculento para convencer os generais-de-divisão supostamente seniores mas vencidos pelo cansaço e descrentes de que aquela minoria esfarrapada venceria Itália dentro "em coisa de dez dias" (ler Napoléon, por Roger Dufraisse). Sua visada, talvez mais funda, talvez pior que a visada de cada um dos outros, bastou e realizou o que roteirista nenhum sonharia, o que direção de ator nenhuma ousaria em tempos de sensacionalismo e mastigação espetacular. Plano, contraplano, silêncio. A tal estrela trêmula na água. O milagre do muitíssimo em tão pouco, a águia. E faz-se o cinema.
Já no filme Goya (Carlos Saura, 1999), a direção parece marcadamente consciente de que o fazer para a grande tela cinquenta anos depois da origem exigirá volição e invenção quase temerárias. Não bastaria erguer enorme o estandarte rubro, fundir obras e sonhos do pintor que ao fim da vida voltaria a dar monstros às peles das paredes, transgredir cronologia com sincronicidade imaginativa e montar como quem faz dançar jogos de luz e de cena. Tanta e tão intrincada tessitura dramática desnortearia audiências futuro adentro, ainda que vissem duas, dez vezes a fita. Porque aquilo que viesse a ser o cinema do futuro poria-nos todos em fulgor ou impotência, tendo sido a arte assim, gota a gota e a patas leves, deste depurado fármaco que conserta a mente torpe, a duras, tristes penas consentido.
(A estrela que brilha nas sombras é luz. Porém, abismo reflete.)
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O ser brasileiro, com trinta anos de Plano Real nas ruas, fará render esta sua época contracionista (responsabilidade fiscal, aderência escorregadia ao compliance, judicialização da política, juros reais a dois dígitos, meta de inflação, teto de gastos, mal-estar de um sul global proto-belicoso por falta de opção ou logística própria de pensamento, nutrologia, alimentação polêmica em território medicinal farto, cancelamento de identidades, privações clubistas, indexação do imposto de renda, exclusivismos pseudo-acadêmicos, estrangeirização das singularidades, singularização dos nacionalismos, gamificação da violência, financeirização dos costumes, reviravolta artesanal por desfalque industrial, redundância industrial pseudo-competitiva, politização das milícias, militarização da moda), desde que mantenha viva a prece pelo renascimento das Artes e vá de encontro ao anseio de criar – antes de enfraquecer – novas imagens; desde que os cúmulos da contração não exauram a depuração da dolência; desde que a saturação ergonômica do medo não inviabilize o prazer econômico da navegação; desde que se forge a expansão por vir na cunha escolástico-digital que nunca tivemos; desde que se revigore a descrição hermenêutica da estética dos saberes de modo a preencher nossa falta de formação histórica a ponderação ontológica da brasilidade nova.
Sem saber aonde levar, se ao fim de si ou se ao fim de tudo, o tino iluminista da transmutação das formas decaídas à cruz da ciência e ao brilho da consciência, da popularização do poder, sem saber se alargaria assim a falta de largueza dos outros, se a torpeza do langor convidaria ao pé no pouco de chão que a água enlaça e indica, sabendo.
Na tela,
Actor (1905) de Picasso
e Agony (1963) de Omogbai
tragam quer do 'a vir' haveres,
quer avenças, procuram
qualificar novas mini-transcendências que (outras
abas, notas, outras telas, aplicações, contendas),
profiram horizontes
sem ter de ir muito longe?
Em estética
mundos se aproximam
para que do calo do ator, façon
nuturâmbica, donde elevado rito
de passagem desde que o mito
do agente se abra,
em topográfico
reprogramemo-nos?
No jogo de território vencia o mais forte, o que teria mais capacidade de usar (um dado dos sérvios; no ato, os açoitadores exalavam elixir alcoólico; os sobreviventes, em muitas descrições posteriores, consomem o elixir) da viola do constrangimento.
Inventariar a justiça seria desvendar desejos sem a necessidade de ver de perto o horror. Perceber, na história, quanto dói o sofrimento e a euforia do açoite, do passado trauma, do campo de concentração à espera de um milagre.
Percebe-se na história: impacto, alcance, frequência, vibração; na metafísica da capacidade topográfica, a atração magnética capaz de perguntar:
– Como mudar os critérios daquilo que julgamos estranho?
No jogo do território há outras forças. Movimentam as voltas do Tempo, permanentes e imortais, anteriores à canção do testemunho.
Descrever implica despertar ergo eco como eu tu, memória capaz de pegar cada manopla agora menos braçal, mais digitalmente. Faz diferença de época ou confissão, eficácia, valências tão afins, bem depois escoariam, algo de pingo indistinto a pedir pingo, nos is do real plano como pingo. Engana-se porém quem muito rapidamente dá de ombros. Digital último a ver pode estar a ver não desde cima, se no firmamento do emblema se afirma olhar, senão a oscilar, fasístico, réu da vista a julgar ver.
Quem pesa é o beta ontológico, esteta e eleitor, terei em vulgo digno, diz, natural plácido fim? Para nós, depende. Todo amor que houver nesta vida haverá da singular obrigação do esforço o haver? Pegará pondo minha-nossa senhora estética signo prático do passo dentro? Tanto melhor, uma vez qualidade do cansaço atrair mais amplo a condição poder dormir.

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